sexta-feira, 4 de abril de 2014

Scones de alfarroba e arandos



Se há ritual que admiro é o ritual de um bom chá. Acho particularmente interessante o facto de diferentes culturas possuírem os seus próprios hábitos e gestos na preparação e consumo desta bebida todos eles cuidados, confortantes e com elegância.
Se há sítio que gosto de estar (embora não com a frequência de que gostaria) é numa boa casa de chá: o serviço sobre a mesa, o vapor da água fervida a escapar do bule enquanto emana o seu aroma e as iguarias dispostas prontas a serem saboreadas.  
Esta semana comprei pela primeira vez dois ingredientes: a farinha de alfarroba  biológica e arandos secos biológicos. Estava desejosa por experimentá-los e incluí-los numa receita. Decidi então, para acompanhar o chá de domingo, adaptar a receita original de scones da bimby para uma versão sem glúten, sem açúcar e totalmente vegan  (substituí a manteiga, os ovos e o leite por ingredientes vegetais). O resultado surpreendeu-nos bastante porque ficaram com uma textura muito semelhante aos scones normais (confesso que estava com algum receio que ficassem duros e secos) e muito saborosos. Aqui fica a sugestão:

Scones de alfarroba e arandos (sem glúten)

Ingredientes
200 gr de farinha de arroz integral (se preferirem uma textura mais suave podem usar metade da farinha de arroz normal)
50 gr de farinha de alfarroba
3 colheres de chá de fermento
30 gr de nozes;
20 gr de amêndoas;
1 tâmara medjool
10 gr de arandos secos (opcional)
150 ml de água (ou leite) de arroz
1 pitada de sal

 Como eu fiz
Na bimby pulverizei o arroz integral, juntamente com as nozes e com as amêndoas, pelo menos 1 minuto na velocidade turbo até ficar tudo em farinha (se quiserem fazer só com os frutos secos podem reservar algumas nozes para o final para encontrarem pedaços crocantes no meio dos scones). Depois adicionei a farinha de alfarroba, o fermento, o sal e misturei tudo à velocidade 4. Adicionei a tâmara sem caroço e misturei à velocidade 6 até ficar bem desfeita e incorporada. Adicionei depois a água de arroz e voltei a misturar tudo à velocidade 4  e 5, até ficar numa massa homogénea (às vezes foi preciso limpar as paredes da bimby com a espátula). Por fim adicionei os arandos à velocidade 4, colher inversa, para permanecerem inteiros.
Depois no tabuleiro de ir ao forno, forrado com papel vegetal, deitei colheradas da massa. Foi ao forno a 180º até surgirem rachas e terem um aspeto de estarem cozidos (aprox. 10 minutos).

Para quem não tem bimby
Se não tiverem uma bimby, podem perfeitamente fazer numa picadora ou mesmo à mão (à exceção da pulverização do arroz em farinha). É só misturar muito bem os ingredientes à medida que vão sendo adicionados. Os arandos deverão ser misturados à mão para não se desfazerem.








Quanto aos ingredientes que estreei nesta receita já tinha uma ideia de que seriam produtos saudáveis mas fazendo uma pesquisa mais detalhada descobri que:
 A farinha de alfarroba é feita da polpa da vagem da alfarrobeira (uma árvore nativa do mediterrâneo) que é torrada e depois moída. É muitas vezes utilizada em substituição do cacau, nomeadamente em sobremesas. Possui apenas 0,7% de gordura mas 38% a 45% de açúcares naturais (sacarose, glicose e frutose), daí ser um bom substituto do açúcar. Em termos nutricionais é rica em vitamina B1 (importante para o sistema nervoso, músculos, coração, atividade mental e raciocínio), em niacina, uma vitamina que entre outras funções ajuda na remoção de substâncias químicas tóxicas do corpo e vitamina A, importante no crescimento dos ossos e dos dentes, vitalidade da pele e visão. Possui também vitamina B2 que atua na eliminação de gorduras e hidratos de carbono, cálcio, magnésio, potássio e sódio.
Por sua vez os arandos são considerados dos alimentos mais saudáveis: estas bagas ajudam a prevenir e a tratar infeções urinárias (quem tem este tipo de problema deve beber sumo de arando), promove o bom funcionamento gastrointestinal e oral, previne a formação de pedra nos rins, baixa o mau colesterol (LDL) e aumenta o bom colesterol (HDL), previne o cancro e ajuda na recuperação de acidentes cardiovasculares.
Portanto, são só vantagens estes scones de alfarroba e arandos. Uma alternativa saudável e saborosa para acompanhar o vosso chá. Até porque a vida, ainda que levada de forma consciente e saudável, também pode ser adocicada.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

"Saber comer é pura informação"


Hoje deixo-vos um artigo informativo muito interessante e urgente: uma entrevista à médica Cristina Sales, médica especialista em Medicina Geral e Familiar, com um currículo e experiência que falam por si: na entrevista aborda os maus hábitos alimentares atuais e como estes afetam a nossa saúde e a saúde dos nossos filhos (que terão uma esperança de vida mais curta que a nossa geração na continuação destes mesmos hábitos). Vale a pena ler.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

É tempo de semear as courgettes


Voltamos ao mau tempo. O céu voltou a fechar-se e a chuva a cair. Como já confessei anteriormente, este tempo provoca-me uma melancolia que longe de ser saudável obriga-me a procurar estratégias para enganar a minha mente e fingir que ela não está lá. E uma dessas estratégias é aproveitar as abertas e cuidar do jardim e horta. As plantas têm essa capacidade: ensina-nos que independentemente dos nossos problemas (ou o que poderão parecer problemas), a vida tem de continuar e se adiarmos o que temos a fazer (neste caso as sementeiras, o plantio), não colheremos mais tarde os frutos.
Não sou grande jardineira e muito menos agricultora: se conhecer os segredos da cozinha exige tempo e dedicação, muito mais exige conhecer a terra e a arte de saber cultivar e cuidar de um jardim ou de uma horta. Não é uma tarefa fácil e há muitos factores em jogo: o estado do tempo, as épocas do ano, o tipo e qualidade do solo e muito mais. Mas é sem dúvida gratificante quando "colhemos os frutos" do nosso trabalho, para não falar do dinheiro que se poupa... Desde que tenho um jardim e uma horta aprendi muito mas ainda estou muito longe de achar que percebo sobre o assunto.
No sábado comprei umas sementes de courgette no mercado biológico. É um legume do qual gosto muito: cozinho-o de várias maneiras e até aprendi a comê-las cruas como expliquei na receita anterior. As instruções da vendedora foram simples: uma semente por buraco e um metro de distância entre cada semente. A chuva só deu tréguas hoje e por isso pus as mãos na terra:


Como amadora que sou, já perdi um pouco a noção dos legumes que semeei este ano. Conto com a destreza das plantas para, se todas nascerem, reclamarem o seu espaço e organizarem-se de forma a encherem-me o ego e começar a acreditar que até dou para isto...Devo confessar que tenho uma certa inclinação para hortas familiares que na primavera parecem algo caóticas mas que ainda assim mais bonitas do que as hortas "profissionais" em que os regos são meticulosamente calculados. E espero que a minha tenha esse aspeto: desorganizado, algo selvagem, na primavera e verão (esse é o meu desejo secreto quando me ponho a semear e a plantar sem perceber muito do que estou a fazer).

E porque a chuva deu tréguas e o sol apareceu, ainda que envergonhado, não resisti em fotografar outras plantas que tenho nesta parte do jardim, que tento dar um ar algo mediterrânico e que eu gosto particularmente por ser onde fazemos as refeições ao ar livre.

Apesar de não ser uma espécie mediterrânica, o ácer é "Senhor" desta parte do jardim. Já cá estava quando chegámos e por isso faço questão que continue. Adoro a mudança de tonalidades que sofre ao longo do ano:
 






Este ano estou confiante nas roseiras: estão cheias de botões. Para além de terem sido podadas por mãos sábias e hábeis (não as minhas, note-se bem), a chuva em abundância (e com ela o azoto) deste inverno já mostra os seus resultados no jardim: 




Na páscoa conto ter orquídeas abertas para enfeitar a minha mesa, como dita a boa tradição madeirense:



E como não poderia deixar de ser, as ervas aromáticas que estão plantadas não só na horta, mas também em vasos, como é o caso...

 ... da alfazema
...e do alecrim.
Como disse antes, não sou jardineira nem agricultora. Mas não tenho dúvidas que este contacto com a terra e com as plantas apaziguam certos demónios que tendem a aparecer de quando em quando. É gratificante deitar na panela o que foi plantado e colhido pelas nossas mãos porque como diz o ditado "tristezas não pagam dívidas".