sexta-feira, 6 de junho de 2014

Bolinhas de nozes sem glúten com puré de batata-doce



Eu não sou de comprar livros de culinária. Não tenho nada contra, pelo contrário, cada vez mais acho-os apelativos e bem pensados para o público em geral. No entanto, acabo sempre por render-me ao gesto bem mais prático (e económico) de procurar as receitas na internet ou inspirar-me nas dezenas de blogs fantásticos de culinária, que desfilam orgulhosamente pela internet. No entanto, devo confessar que ultimamente começo a ter alguma dificuldade em organizar-me, tantas são as receitas apelativas que encontro por essa via. Quantas vezes leio os posts com receitas que quero mesmo experimentar e depois ou esqueço-me totalmente, porque li entretanto outras tantas, ou não me recordo em que blog é que  encontrei a tal receita que me ficou na memória. 

E como ando a substituir muitas das nossas refeições por refeições vegetarianas comecei a sentir a necessidade de ter um livro que me orientasse nessa tarefa com receitas, ingredientes, informação nutricional, etc.
Hoje partilho convosco uma receita de bolinhas de nozes, sem glúten, que acompanhei com puré de batata-doce. Escolhi a batata-doce para acompanhamento porque para além de ser um tubérculo que me traz muitas recordações de infância, pareceu-me que iria combinar com o sabor mediterrânico das oleaginosas. Para além disso, a batata-doce tem mais vantagens a nível nutricional do que a batata normal: contém vitaminas A, C (importantes para o sistema imunitário), vitamina B com ação sobre o sistema nervoso e mais fibra. É, também, fonte de betacaroteno e de outros carotenoides, nomeadamente a qualidade que usei nesta receita,  que lhe dão a cor laranja do seu interior. Contém triptofano, percursor da serotonina (um neurotransmissor que regula o nosso humor), potássio e é rica em vários minerais e polifenóis com ação antioxidante, anti-inflamatória e anticancerígena. Uso-a muitas vezes nos assados, nas sopas e ultimamente faço este puré em vez de usar apenas a habitual batata.

Não estou habituada a utilizar frutos secos em pratos salgados, nomeadamente as oleaginosas (como as nozes, amêndoas e avelãs). Mas como já aqui referi algumas vezes, quero começar a introduzi-las nas nossas refeições, tendo em conta que, para além de serem uma boa fonte de proteína, também o são de gorduras insaturadas e poliinsaturadas (sobre estas já falei aqui). Por outro lado, as nozes e amêndoas são ricas em vitamina E, que também tem uma ação antioxidante, é necessária para a formação de glóbulos vermelhos e tecido muscular, em potássio e vitaminas do complexo B. As avelãs, para além da vitamina E são também uma importante fonte de cálcio.
No livro que comprei encontrei uma receita à base destes frutos que me pareceu uma boa ideia. Claro que não resisti em fazer algumas alterações no momento da confeção, mas o essencial está como a receita original. Uma das alterações que fiz foi adicionar, para além da salsa, a rama da cenoura como aromática, porque quando compro as cenouras no mercado biológico trago-as sempre com a rama que aproveito nas sopas, saladas e enquanto erva aromática em diversos pratos. Embora tenha que ser usada com algum cuidado porque tem um sabor muito intenso, este ingrediente, que a maioria das pessoas nem tem acesso porque as cenouras são normalmente vendidas sem a rama, segundo a alimentação macrobiótica é benéfica para os pulmões. Inclusivamente, fazem a relação com a forma rendilhada das suas folhas à rede dos nossos brônquios, aspeto que achei curioso...

A outra alteração que fiz foi substituir o pão ralado (cá em casa, nunca ficam sobras do pão são glúten) por  umas tostas de arroz e castanha sem glúten e biológicas, que normalmente compro para os lanches fora de casa das miúdas.

Bolinhas de nozes (16 unidades aprox.)

Ingredientes
200g de frutos secos (avelãs, nozes, amêndoas);
2 cenouras cozidas (200g);
2 colheres de azeite;
2 colheres de café de sal
2 colheres de sopa de pão ralado sem glúten (eu triturei 3 tostas biológicas de arroz e castanhas, sem glúten);
2 colheres de pão ralado ou tostas raladas para envolver as bolinhas depois de formadas;
1 cebola;
1 dente de alho;
2 colheres de salsa;
1 colher de garam masala ou cominhos (eu usei garam masala)
rama das cenouras q.b

Como fiz
Comecei por colocar as cenouras a cozer em pouca água, temperada com sal. 
Na Bimby (pode ser numa picadora normal) triturei as tostas e as oleaginosas nas velocidades 5-7-9 até ficarem reduzidas a pó e reservei numa taça. Piquei a cebola, o alho e a salsa aproximadamente por 5 segundos na velocidade 5 e juntei às oleaginosas. Piquei também a cenoura com o azeite, na velocidade 5 (foram necessárias várias tentativas empurrando com a espátula a cenoura das paredes da máquina para as lâminas), até obter um creme. Adicionei o creme de cenoura às oleaginosas, temperei com o sal, garam masala e misturei tudo muito bem.
Depois, claro, chamei as ajudantes do costume para formar as bolinhas, que devem ser depois passadas por pão ralado (neste caso as tostas sem glúten raladas) e assadas no forno pré-aquecido a 200ºC, durante 15 a 20 minutos.

Receita do livro Cozinha Vegetariana para quem quer poupar, de Gabriela Oliveira




Puré de batata-doce

Ingredientes
300g de batata-doce;
200g de batata;
200 ml de água;
1 colher de azeite;
sal q.b.
pimenta-preta q.b.
noz-moscada q.b

Como fiz
Na Bimby coloquei as batatas descascadas, a água (o puré fica com uma consistência mole, se preferirem uma consistência mais firme reduzam a água), o sal e programei a Bimby para 20 minutos, à temperatura 100º C, velocidade 1. No final dos 20 minutos, deitei o azeite, a pimenta, a noz-moscada e triturei por 10 segundos, velocidade 5, até obter um puré bem cremoso.

Modo tradicional
Numa panela coloque as batatas descascadas com água e sal até cobri-las. Quando as batatas estiverem cozidas, escorra a água excedente, tempere com o azeite, a pimenta e a  noz-moscada e reduza tudo a puré utilizando o utensílio ou eletrodoméstico da sua preferência (varinha mágica, passe vite, batedeira, ou até mesmo o passador manual).




As bolinhas foram um sucesso e eu fiquei mesmo rendida à utilização das oleaginosas numa receita salgada. Combinaram muito bem com o puré de batata-doce (a minha filha mais velha que entende que não gosta de batata-doce pede sempre para repetir quando faço este puré) e parece-me que com essa combinação consegui tornar a refeição, além de saborosa e apelativa (aos olhos e à boca), mais nutritiva e saudável. É sem dúvida uma refeição a repetir. Experimentem!

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Chilli fingido com tortilhas de milho


Há refeições que são um sucesso garantido cá em casa. E com sucesso garantido refiro-me à ausência de episódios de crianças paradas, com as mãos em baixo, sem pegar nos talheres ou nós a suspirarmos (para não dizer desesperados) e a dizermos vezes sem conta L. come, E. come. Uma dessas refeições é o meu Chilli fingido com tortilhas de milho. Chamo de Chilli fingido porque resultou da receita de Chilli com carne da Bimby (com carne de vaca moída) mas que evoluiu para uma receita vegetariana a partir do momento que decidi não servir leguminosas com carne. E é fingido porque de picante não tem nada: aliás, mesmo com carne nunca deitei piri-piri ou outro tipo de picante. Nunca consegui habituar-me a esse sabor na comida: a única coisa que sinto quando como coisas picantes é a língua e os lábios a arderem cada vez mais até que desisto do prato porque já não sinto mais nada (os outros sabores, as texturas, etc.). Já tentei várias vezes, para tentar perceber porque tantas pessoas e culturas são adeptas desse tipo de tempero mas o resultado é sempre o mesmo. Talvez seja eu que tenha uma hipersensibilidade ao picante e o que para os outros é um sabor ou prazer, para mim é uma sensação verdadeiramente dolorosa. Por outro lado, como tenho crianças em casa, não me parece adequado que comam temperos tão fortes. Portanto, quando faço o Chilli fingido é ver o meu marido a ir buscar o frasquinho de tabasco ao armário todo contente: ele não se importa nada com a ausência da carne, mas do picante ele não dispensa...
No fundo, poderia chamar esta receita simplesmente de Feijão preto com legumes, mas os olhos das miúdas brilham quando eu lhes digo que para jantar temos chilli com tortilhas e portanto ficou o nome.
De resto é uma refeição apreciada por todos, principalmente pelas miúdas que adoram feijão (como qualquer outra leguminosa) e adoram... comer com as mãos. Porque é que as crianças gostam tanto de comer com as mãos? E como lhes dou luz verde neste caso, parece que ainda lhes sabe melhor. 
Se a parte de substituir a carne moída por legumes foi pacífica e fácil, a parte de encontrar uma receita de tortilhas de milho sem glúten não foi tão fácil assim. Todas as receitas que encontrei ou misturavam farinha de milho com farinha de trigo ou as receitas sem glúten que experimentei resultaram mais numa espécie de fritos de milho muito duras. Deve haver certamente boas receitas de tortilhas de milho sem glúten por essa net fora mas eu, infelizmente, não tive a sorte de me cruzar com elas (se encontrarem alguma, por favor, indiquem-me). Portanto, após várias tentativas frustradas e indignas de serem fotografadas e publicadas neste blog, o que fiz foi partir da minha receita de panquecas sem glúten e tentar fazer uma versão salgada. Sim, sim, eu sei: tortilhas com ovo? Pois, mas já sabem que as receitas sem glúten tem as suas especificidades... E resultou. Se são tortilhas ou não, na sua verdadeira essência, talvez não. Mas que resultam muito bem com o chilli, lá isso resultam e todos lá em casa ficam felizes com este jantar que com muita presunção e imaginação se diz mexicano.


Chilli fingido com tortilhas de milho sem glúten

Para o Chilli com legumes biológicos
50 gr de azeite;
1 cebola pequena;
2 dentes de alho;
1 cenoura média (na época dos pimentos substituo por um pimento de preferência vermelho);
200 gr de polpa de tomate;
1 beringela ou courgette (desta vez usei courgette);
500 de feijão preto ou vermelho (desta vez usei o preto);
sal q.b;
cominhos em pó q.b;
pimenta preta q.b;
salsa fresca q.b;
tomilho q.b;

Como fiz
Coloquei o feijão preto de molho na véspera. No dia da confeção cozi o feijão preto em água por volta de 1 hora até ficar bem cozido: Quando já estava praticamente cozido temperei com sal e deixei por mais uns minutos para o feijão ficar temperado. 
Na Bimby piquei a cebola, a cenoura (ou pimento), a courgette e o alho  na velocidade 5 durante uns 10 segundos. Juntei o azeite e cozinhei durante 1m e 30s à temperatura varoma, velocidade 1. Adicionei a polpa de tomate,  sal, os cominhos e deixei cozinhar por 10 minutos à temperatura 100º, velocidade 1. Por fim coloquei o feijão-preto cozido, envolvi bem no molho durante 3 minutos à temperatura 100º, velocidade colher. Adicionei salsa picada e tomilho frescos.
Quando faço com a beringela (pessoalmente gosto ainda mais), depois de grelhá-la e cortar as rodelas aos quartos, como explico aqui, deito-a no final juntamente com o feijão, porque gosto de tê-la aos pedaços.

Do modo tradicional
Faça um refogado no azeite, com a cebola, o alho, a cenoura (ou pimentos) e a courgette picados (pode optar por previamente picar todos os legumes na picadora para facilitar o processo e para o molho ficar mais uniforme, um pouco como acontece com a carne moída). Tempere com sal, adicione a polpa de tomate e deixe cozinhar cerca de 10 minutos. Adicione o feijão preto cozido e se optar pela beringela faça como explico aqui, ou seja, adicione-a juntamente com o feijão previamente grelhada e cortada aos pedaços. Deixe cozinhar por mais 3 a 5 minutos para o feijão tomar o sabor do molho. Adicione, por fim, a salsa e o tomilho frescos.

Tortilhas de milho (dá para aproximadamente 4 tortilhas)
1 copo de farinha de milho biológica;
1/2 copo de amido de milho biológico;
1 ovo biológico;
1 colher de café de sal marinho;
2 colheres de sopa de óleo de girassol biológico e prensado a frio;
1 copo de água.

Modo de fazer
Na Bimby ou na batedeira (eu uso a batedeira porque a Bimby está ocupada a fazer o feijão), adicione as farinhas, o sal, o ovo e bata de forma a misturar tudo. Depois adicione aos poucos a água e o óleo de girassol, com a batedeira ligada, até obter uma massa igual à massa das panquecas.
Numa frigideira antiaderente coloque um pouco de óleo de girassol (apenas o suficiente para a frigideira ficar untada) e quando estiver quente deite um pouco de massa, enquanto move a frigideira em movimentos circulares de forma a que a massa cubra toda a superfície (como se faz com os crepes). Deixe a massa cozer bem e quando começarem a formar-se bolhas, pegue na frigideira e abane-a para a frente e para trás até sentir que a tortilha está bem solta. Com um movimento único lance a tortilha ao ar de forma a virá-la. Embora esta técnica assuste muita gente é a melhor para garantir que as tortilhas não se partam quando as viramos. Se ainda assim não preferirem arriscar, pode sempre, com uma escumadeira, virar a tortilha. Deixe cozer do outro lado (já não precisa tanto tempo) e quando tiver solta pode tirá-la para um prato.
 
Fiquei mesmo satisfeita com o resultado, não só com o sabor mas também com a textura e consistência, que deu perfeitamente para dobrá-las, rechear com o feijão e até enrolá-las para comê-las à mão. 
Escusado será dizer que as mãos, bocas e os guardanapos de alguns elementos da família ficam dignos de um filme de terror…