quarta-feira, 19 de março de 2014

Método de fermentação caseira com farinha de arroz e quinoa


Desta vez venho aqui mostrar-vos um processo de fermentação caseira que experimentei pela primeira vez e funcionou muito bem. O único fermento biológico sem glúten que eu encontro no mercado é muito caro e já andava a magicar uma solução para conseguir fazer o pão totalmente biológico, ultrapassando esta questão. No mercado biológico falei com uma vendedora que vende um pão muito bom (falei nele aqui) confecionado com o seu próprio fermento e que me deu as instruções que eu precisava.
Este fim-de-semana decidi experimentar e embora ainda tenha feito com o fermento que utilizo habitualmente (tenho dois pacotes para gastar) da próxima vez pretendo experimentar com o fermento biológico sem glúten a ver se obtenho os mesmos resultados (depois conto-vos como correu). Então fiz assim:
Após ter feito a massa do pão como habitualmente (podem fazer com qualquer receita de pão que queiram ou que costumem fazer, eu fiz um pão com farinha de arroz integral e farinha de quinoa - as fotos estão mais abaixo) e depois de esta ter levedado retirei uma porção para um frasco de vidro com tampa. Utilizei um frasco de mel vazio de 1 litro, devo ter preenchido aproximadamente 1/5 com a massa levedada. Umas duas horas depois acrescentei 50g de farinha de arroz integral  e mexi, para voltar à consistência inicial da massa deitei água tépida e voltei a envolver tudo muito bem. Fechei o frasco e deixei à temperatura ambiente, num local abrigado da luz direta. No dia seguinte o aspeto já era como está nas fotos. No final do dia voltei a repetir o procedimento anterior, mas fiz com a farinha de quinoa que entretanto comprara e que andava desejosa por experimentar. É importante ao longo dos dias que observem a massa, no fundo o que estamos a fazer de cada vez que deitamos mais farinha é alimentar um organismo vivo, se o deixarmos de o fazer ele acabará por morrer: se tudo correr bem ela deverá formar bolhas e crescer. Se não, é sinal que não está a resultar...






Depois é utilizar normalmente como um fermento na vossa receita de pão (quando decidi utilizá-lo, no 3º dia de fermentação, o frasco já estava quase a meio e com bolhas maiores). Não se esqueçam que se quiserem continuar a utilizar este método de fermentação das vezes seguintes deverão tirar uma porção da massa antes de a colocar no forno para assar e repetir tudo o que expliquei anteriormente. Eu tirei a primeira porção no domingo e utilizei-a num novo pão que fiz na terça-feira. Se, por outro lado, quando tiverem a quantidade de fermento desejada e se não quiserem utilizá-la logo nesse dia devem colocá-la no frigorífico. Pelo que me disse a Sr.ª do mercado, aguenta durante muito tempo (aproximadamente um mês), mas deve ser vigiada para não criar bolores (eu isto nunca experimentei). Depois quando for para fazer o pão têm de colocá-la novamente em temperatura ambiente e esperar que levante novamente. 
O pão resultou muito bem e de facto excedeu as minhas expetativas: ficou alto, bem arejado e encorpado. A côdea ficou bem estaladiça e para minha surpresa no dia seguinte ainda fez o som da côdea a estalar quando o partimos (um truque que eu uso na cozedura do pão é colocar um tabuleiro com água no fundo para criar humidade e tornar a côdea mais estaladiça)... Aqui ficam as fotos:


O sol da manhã no meu pão...






Como referi no início do post utilizei pela primeira vez a farinha de quinoa na confeção do pão. O blog também tem provocado em mim a vontade de ir mais longe nos meus cozinhados e experimentação de novos produtos. E se forem produtos sem glúten melhor ainda, porque, como sabem, a minha cozinha está condicionada a essa questão. E posso dizer que fiquei muito satisfeita com o resultado.  O sabor é ótimo e toda a família ficou rendida: o pão de trigo ficou esquecido num canto...
Quanto à quinoa, a pesquisa que fiz foi ao encontro do que já me tinha sido explicado na mercearia biológica onde comprei a farinha. Disseram-me inclusivamente que a quinoa é considerada o alimento mais próximo, em termos nutricionais, do leite materno. Será verdade? Na minha pesquisa descobri que é uma planta nativa da Bolívia, Colômbia, Peru e Chile com grande valor nutricional. Produz um grão considerado muito importante na alimentação da população andina, população esta com práticas ancestrais no que diz respeito ao seu consumo. É considerada um pseudocereal porque possui os mesmos nutrientes que os cereais propriamente ditos mas as suas características de cultivo e crescimento são diferentes. Possui todos os aminoácidos essenciais importantes para o nosso corpo e é rica em cálcio, ferro, ácidos gordos ômega 3 e 6, fibra e hidratos de carbono. E claro, não contém glúten! 
Parece-me que são só vantagens... nós ficámos adeptos!


terça-feira, 18 de março de 2014

Passeio a Gondramaz


Gondramaz é uma das 27 aldeias do xisto que existem em 16 municípios do Pinhal Interior, na região centro. Já lá tínhamos ido o ano passado: ficámos fascinados não só com a paisagem serrana em que se insere mas também pelas casas de pedra pitorescas e ruelas que serpenteiam até às riquezas locais.
Este fim-de-semana, aproveitando o sol e o bom tempo, voltámos lá. É relativamente próximo da nossa casa e por isso quando queremos sair da rotina, espairecer e entrar noutros mundos visitamos, muitas vezes, as aldeias de xisto que resistem nos arredores.  A sensação é que entramos noutra época, noutro mundo, onde o tempo fez o favor de parar. O silêncio impera por estes lados e permite-nos ouvir o som bucólico das eólicas que giram ao sabor do vento no cimo da serra, lembrando-nos que o progresso afinal existe.
Aqui ficam algumas fotos do passeio:

 
  

"Mamã, mas porquê é que as casas são de pedra?"



A pensar nos seus visitantes, Gondramaz está muito bem sinalizada:


 Ao Sr. Manuel escultor não resistimos em comprar uma linda escultura da sua autoria: Eva sentada numa pedra.


O forno a lenha já estava a ser preparado para a chanfana:

 


Um dos poucos residentes com quem nos cruzámos: homem sério, de poucas palavras...As miúdas, contudo, adoraram-no!


Passear para mim é fundamental: coloca-nos logo um sorriso nos lábios, tira-nos do stress do dia-a-dia e do boliço das cidades. Conhecer outros locais, gentes e modos de vida é fundamental para muitas vezes questionarmos os nossos próprios hábitos e reequacionar se de facto não há outra maneira, mais saudável, mais sustentável, enfim, mais equilibrada para levarmos a nossa própria vida. E eu acredito cada vez mais que sim.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Arroz de ameijoas, funcho e especiarias



Eu sou uma pessoa que gosta de marisco. Qualquer tipo de marisco (pelo menos aqueles que eu conheço). E gosto muito de marisco não só pelo sabor (que, por norma, é arrebatador) mas também porque transporta-me para momentos fabulosos: dias quentes de verão, som da rebentação das ondas e se tivermos mesmo sorte um pôr-do-sol flamejante na linha do horizonte. Ou simplesmente sentar-me à beira mar para comer umas lapas grelhadas...
Este sábado fomos à peixaria do mercado municipal e é habitual trazermos um saco de berbigão para fazer um arroz para o almoço. No entanto, desta vez não houve berbigão mas tinha a boa da ameijoa, trazida diretamente da ria de Aveiro. 
Quando cozinharem ameijoas não se esqueçam de as lavar bem em água fria e deixá-las em água e sal aproximadamente por 45 minutos para soltar a areia. 

No mercado biológico comprei um belo pé de funcho que para além de ter dado o nome à minha cidade, ao manuseá-lo apetece-me sempre trincar sem qualquer pudor. O cheiro é-me tão familiar que me transporta logo para um sabor de infância: os famosos rebuçados de funcho madeirenses. 
Esta planta mediterrânica é composta por bolbo, caule, folhas e sementes, tudo comestível. O seu caule  para além de ser muito saboroso e aromático, a lembrar licor de anis, é também muito saudável: rico em vitamina C (20% da sua composição) possui propriedades anti-inflamatórias, antiespasmódico, diurético, antibiótico e expectorante. Lembro-me que em pequena quando tinha a garganta inflamada a minha mãe recomendava um rebuçado de funcho e eu... não me importava nadinha! Hoje a minha filha mais velha diz-me: “mamã tenho a garganta a doer, posso comer um rebuçadinho?”


 Como tinha estes dois ingredientes, lembrei-me que poderia ser uma boa combinação. O funcho é ótimo para temperar peixe e por isso achei que também combinaria com as ameijoas. Não me enganei: deu um sabor muito fresco ao arroz. Utilizei o bolbo picado no momento do refogado e as folhas enquanto erva aromática no final da cozedura. Combinado com as especiarias garam masala, curcuma e gengibre que fiz questão de torrar no momento do refogado, resultou mesmo muito bem. 
O arroz que utilizei, como é habitual nos meus cozinhados, foi arroz integral e biológico. Como tenho duas crianças pequenas preferi, pacientemente, tirar as conchas após a cozedura das ameijoas e antes de deitá-las no arroz.

 


Adoro fazer combinações de ingredientes e temperos inesperados e descobrir que resultam bem. Experimentem!

domingo, 16 de março de 2014

Panquecas, sol e coco



Hoje estreamos os pequenos-almoços ao ar livre. Já tínhamos comido algumas vezes no pátio este ano, mas de forma tímida, a medo, sem grandes preparações ou rituais, não fosse o tempo pregar-nos uma partida e termos de fugir com a caneca ou prato na mão. Hoje não. Tivemos direito a tudo: toalha colorida, chapéu-de-sol para a sombra, louça completa sobre a mesa. E claro, panquecas! Ou não seria domingo...


No seguimento da receita anterior e deste outro post sobre panquecas, as de hoje foram especiais: preparei-as única e exclusivamente com farinhas sem glúten, biológicas, com um sabor a coco formidável. É para repetir.
Quem segue o blog já deve ter percebido que não sou pessoa de seguir receitas à risca e faço muita coisa "a olho", sem medidas, principalmente quando já conheço bem as receitas ou os ingredientes utilizados. Faço-o porque simplifica e ganho tempo, algo que para quem tem crianças pequenas é muito importante. As panquecas não são exceção mas para ajudar-vos vou tentar lembrar-me das medidas que usei das primeiras vezes que as fiz.

Se tiverem alguma dúvida, não hesitem em perguntar, ok? Farei sempre questão de responder-vos e ajudar:

Ingredientes (como já referi utilizei todos biológicos) :
1 copo de farinha de milho (eu usei farinha de milho branco e amarelo e parte de farinha de milho amarelo integral, mas podem apenas usar uma);
1/3 copo de amido de milho;
1 colher de chá de fermento;
1 pitada de canela;
1 pitada de sal;
1 raspa de laranja;
Raspa de creme de coco (no frigorífico fica duro e por isso tem de ser raspado): não medi mas sejam generosos, não tenham medo! 
1 ovo;
1 iogurte natural: podem usar iogurte kefir (aprox. 100g), deixa as panquecas incrivelmente fofas e é muito saudável;
1 copo de leite (pode ser leite vegetal, eu hoje usei leite de arroz);
4 colheres de óleo de girassol biológico prensado a frio.

Como fiz:
Numa batedeira coloquei as farinhas com o amido de milho, o fermento, a canela e o sal e misturei numa velocidade baixa. Acrescentei a raspa do creme de coco, da laranja e o ovo e envolvi tudo numa velocidade baixa e depois média. Sem desligar a batedeira adicionei o iogurte (se preferirem podem não incluir este ingrediente, eu pessoalmente acho que deixa as panquecas muito mais ricas), o leite e o óleo de girassol. Quando estiver tudo muito bem envolvido, podem aumentar a velocidade para ficarem bem cremosas e sem grumos. É importante nesta fase verem se a massa tem a espessura desejada: se quiserem mais líquida devem adicionar leite, se quiserem mais espessa adicionam mais farinha aos poucos (se aumentarem muito a farinha, coloquem também mais amido de milho na proporção que coloco na lista dos ingredientes).
Depois é colocar conchas de massa numa placa ou frigideira anti-aderente em lume médio. Ao vertermos a massa da concha ela deverá escorrer como um creme (sem estar muito líquida). Quando aparecerem bolhas à superfície podemos virá-las para cozer do outro lado. 
 



Como já devem ter reparado, habitualmente comemos as panquecas com mel mas desta vez acrescentamos também raspa de creme de coco e ficou verdadeiramente delicioso. 

Podem também acompanhá-las com compotas ou fruta fresca: agora é ao gosto de cada um. Espero que gostem!